
Será possível que este povo continue entorpecido como se não lhe tenha bastado 48 anos do Estado Novo, continuando a apostar neste Novo Estado a que pouco falta para completar o mesmo período, sem soluções, sem inovação, sem desenvolvimento, sem provocar o bem-estar porque todos almejámos na noite do 24 de Abril?
Não me conseguem vender como única solução política o bipartidarismo, nesta sempre insistente ideia do bloco central, como se outras alternativas não se nos deparassem e o nosso fadário se esgote em ter de se votar num destes dois partidos para o bem colectivo.
E, nem sequer me vou deter a enumerar todos os escândalos de que temos sido contendores e que nos têm lacerado de forma contundente, infligindo-nos este castigo permanente que quase nos leva a acreditar que somos um país sem saída, tão-somente porque acredito que é chegada a hora deste povo se encontrar, pesando seriamente o seu passado recente, de literal falência a todos os níveis, e ponderar o futuro, que não se confina em nós, mas que pode ter gravíssimas repercussões nas gerações vindouras, de cuja responsabilidade não nos podemos demitir. E não haverá suficientes redenções ou actos de contrição para a verdadeira emancipação deste povo, enquanto não nos centrarmos neste princípio basilar; As governações do PSD e do PS já nos provaram, com elevados custos, ao longo de todos estes anos, aonde nos conduzem, o que me leva a repensar seriamente, porque abster-me ou votar em branco, nunca, a quem confiarei o meu voto nos próximos actos eleitorais.
Honra-me, cada vez mais, ser um homem de esquerda: um homem que viveu o pós guerra, o longínquo mas sempre presente ano de 1958 em que Humberto Delgado ganhou as eleições, os inolvidáveis anos sessenta; o Maio de 68, os Beatles, o Woodstock, a Guerra Colonial (na carne), a Ala Liberal de Sá Carneiro a Miller Guerra, as conturbadas eleições de 69 e 73 e uma quantidade infinda de outras situações político-sociais que talvez se não repitam mas que contribuíram enormemente para as grandes transformações que se operaram em Portugal. E nada do que citei me confere um estatuto especial, a não ser a deriva deste manancial de experiencia acumulada e que me permite não me rever nesta usurpação do poder a que assistimos, impávidos e serenos e por nossa exclusiva culpa, entregando deliberadamente em cada acto eleitoral o ouro ao bandido.
Sou e sempre fui apartidário mas desta vez voto Bloco de Esquerda. Coloco algumas reticências da sua capacidade de governação mas identifico-me com muitas das suas posições assumidas enquanto oposição, que me têm parecido sérias, eficazes e incisivas. É um voto na mudança!