quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ELEIÇÕES EM ANGOLA. SERÁ QUE ALGUMA COISA VAI MUDAR?

É já amanhã, dia 5, que terá lugar naquele país eleições legislativas, as primeiras em 15 anos, para eleger os deputados à Assembleia Nacional, tendo-se verificado durante a campanha abusos dos direitos fundamentais e actos de violência política, perpetrados por apoiantes do partido que detém o poder. A verdade é que se espera, já sem grandes expectativas, pelos resultados das mesmas, sabendo nós de antemão, que mais uma vez, vai imperar a supremacia do M.P.L.A. para mal do povo angolano, que continuará subjugado ao centralismo excessivo e à continuação da corrupção há muito institucionalizada naquele país africano.
Mais não se pode esperar de José Eduardo dos Santos, ainda que este tenha dito, nas suas intervenções da campanha que Angola é de todos os angolanos e que serão afastados do centro do poder todos aqueles que defendem interesses pessoais e particulares. Este tipo de declarações já não convence quase ninguém, mas terá inevitavelmente o seu efeito perverso numa franja considerável de eleitores que pela sua iliteracia e medo votarão, favorecendo o partido que governa há 33 anos.
Dos Santos é um dos homens mais ricos do mundo e o seu povo um dos mais pobres, ainda que o crescimento do PIB se tenha aproximado dos 20% em 2007.
Como se pode acreditar em Dos Santos quando se sabe como tão bem distribui o poder pelos seus familiares; a sua filha Isabel dos Santos é detentora de uma fortuna considerável …sabe-se que controla uma boa parte de acções da P.T., que é dona da empresa “Urbana 2000” que tem um contrato de leão no valor de 10 milhões de dólares anuais para fazer a limpeza e o saneamento da cidade de Luanda. Detém 25% do B.I.C. – Banco Internacional de Crédito, a empresa de telemóveis “Unitel”, uma empresa de móveis em Portugal, empresas ligadas à exploração de diamantes e à hotelaria, tanto em Angola como em Portugal…De onde surge este portentoso poder económico?
Não se acredita que Dos Santos alguma vez mexa nos enormes privilégios que concede à família, aos seus generais, aos altos quadros do partido e a outros seus apaniguados.
Falta quase tudo em Angola e a vida de luxo na sua capital, uma cidade de altos contrastes sociais, é apanágio de alguns a quem nada falta; lojas de reputadas marcas internacionais, só permitidas a uma elite que tem um elevado poder de compra; restaurantes e discotecas de elevado luxo e carros de ultima geração. Em contrapartida, num universo de 16 milhões de habitantes, 68% da população vive abaixo do limiar da pobreza, sendo 2 dólares por dia o que ganham mais de dois terços da população, atingindo o desemprego uma taxa de 40%; os bairros degradados são autênticas colmeias e a esperança media de vida está nos 42 anos e a mortalidade infantil é das piores do Mundo, morrendo antes dos cincos anos cerca de um quarto das crianças. E é preciso lembrar que Angola é presentemente o maior produtor de petróleo em África.
Luanda tem crescido e vai continuar a crescer como um importante centro de negócios, empurrando os pobres para a periferia, com o fito da construção de condomínios privados.
Só me pergunto: Onde foram parar os ideais que impulsionaram os povos de Angola à luta armada contra o colonialismo? E que fizeram os governos do M.P.L.A., no poder há 33 anos, para emancipar esses mesmos povos, congregando-os numa nação una, proporcionando-lhe condições dignas de vida, económica e social?
Nada se pode esperar de quem andou na mata a combater e chegado ao poder subverte toda a esperança de um povo, tornando-se o seu algoz.
Um destes dias saberemos quem vai governar e daqui a mais uns anos veremos quais as reais transformações operadas e se elas beneficiaram os descamisados daquele que pode ser um grande país. Eu, por mim, continuo a não acreditar!

2 comentários:

Liliana Josué disse...

olá Joaquim.

Acabei de ler o teu artigo sobre Angola. Para além de estar muito bem escrito (na minha modesta opinião) vem-nos fazer estemecer corpo e alma, principalmente pela esperança que(os como nós)do antes e após 25 de Abril tanto acreditámos no MPLA. É duro vermos como tantos ideais morreram e no que se transformaram.
Parabens, está um belo artigo.

Um beijinho
Liliana Josué

Nica disse...

"... até ao fecho das urnas e até à apresentação dos resultados, vamos dar um grande exemplo ao mundo, não só de civismo mas também de participação democrática" disse Santos sobre o andamento da eleição. Isso me soa irônico, vindo de alguém que quer se perpetuar no poder. O MPLA usou os lucros derivados do petróleo, que alimentam o governo, para bancar sua campanha eleitoral, dominando a mídia. Sim, esse senhor vai vencer em 2009 e continuar lá, esbaldando-se a custa do sofrimento do povo e tudo será como dantes, infelizmente.